Hoje recebi o mesmo e-mail duas vezes, o assunto era: "Você sabia?". Não, eu não sabia. Porque é claro, todo mundo sabe de alguma coisa que eu não sei. Por mais que eu tente eu nunca sei de nada. Eu me distraio a todo instante, eu sempre perco o mais importante. Engraçado é que pros outros parece tão fácil. Os outros devem rir por trás dessa tela, dessa vida virtual, mas eu nem desconfio de um complô nem de uma conspiração internacional, porque afinal, os outros são os outros, e só. Talvez você tenha medo das minhas ideias, desculpe, mas eu preciso ser sincera. Estou treinando pra ser melhor, encontrei mil razões, por isso procuro evitar comparações. Pra isso preciso muito mais que uma semana. Eu tento esquecer que é tanto tempo, até tenho cinquenta receitas pra isso, mas sei que isso não vai resolver, já não tem como correr, e assim minha vida continua. Quem sabe me achariam melhor se eu tivesse carro e grana. Onde foi que eu errei? Eu sei que as coisas são mais fáceis na televisão, mas eu não consigo achar isso normal. Só sei que um tropeço ensina mais do que sucesso, é tudo bem mais claro agora. Alguns dizem que tenho um certo ar cruel de quem sabe o que quer, não encontrei uma fórmula, mas eu tenho mesmo tudo planejado, aprendi nos livros pra um dia usar. Nem sei se terei tempo pra isso. Eu sei, eu pareço exagerada. A verdade é que sempre fui. Meu destino nem foi traçado. Nem sei se tenho um. Eu adoro mesmo é este mundo inventado. Cada um inventa o seu e vive feliz. Felicidade de plástico. Descartável. Hoje nem é dia vinte três do três e estou aqui sentada escrevendo pra você, e pra ser sincera conto as coisas por contar. Não ria do que eu digo, eu digo um monte de bobagens, isso é só um bilhete curto. Eu queria mesmo estar no Rio de Janeiro. Aqui eu tento respirar, encher o pulmão de vida, mas é difícil deixar qualquer ar entrar. Acho que nunca mais vou respirar. Bobagem! Quer saber? Pra falar a verdade melhor sair daqui enquanto é tempo, os dias andam estranhos. Uh, como eu quero. Mas enquanto isso me segue que eu conheço outro lugar, longe daqui, n'outra dimensão, podemos passar quarenta dias no espaço, e se você não quiser, não importa, eu nem sei se terei alguém pra me socorrer, fazer meu jantar, tampouco eu quero, nem quero um estranho dormindo no meu sofá. So far away. Niguém vai me socorrer quando chover e acabar a luz. Cada um por si. Então vou beber. Vinho à beça na cabeça, eu que sei. Acho mesmo que estou do avesso, sempre que vou dizer aquelas coisas na hora esqueço. Nem pense que estou falando de amor, estou falando da minha doença, do que eu penso, do meu lado Z, de um outro futuro. Engraçado como uns e outros pensam que sou escravo, odeio quando me fazem de gato e sapato. A verdade é que eu nem ao menos sei o que é melhor pra mim. Nem do que eu preciso. Isso está longe do meu domínio. Nem sou tão esperta, sou só uma garota com meus mistérios. Quem além de você vai entender? Quem pode entender? Não entendo. Eu acho mesmo que só você é capaz. Se falo assim, é sempre por querer. Só peço uma coisa, não conte pra ninguém, fica entre mim e você.
Salada inspirada em Leoni (ao vivo).
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